As crianças de Brumadinho
No último Natal, escrevi
uma crônica, que foi publicada no jornal A Tribuna, sob o título “O Trenzinho
do Papai Noel”. Inspirei-me em meu netinho, que fez questão de acrescentar seu
trenzinho de brinquedo na decoração de Natal, em sua casa. E imaginei Papai
Noel deixando trenó e renas descansando, para embarcar no confortável trem, a
fim de percorrer o mundo e levar presentes às crianças que o esperavam com
ansiedade.
E Papai Noel percorreu muitos cantos do
mundo, começando pelo Brasil, onde visitou casas ricamente enfeitadas e entregou
presentes pedidos nas cartinhas das crianças, assim como esteve em hospitais,
onde fez os pequenos se esquecerem de suas dores e entregou lembrancinhas
compradas pela solidariedade de funcionários. Sem contar as paradas nas calçadas, onde distribuiu às crianças de rua brinquedos
simples, de plástico, providenciados por vizinhos e grupos assistenciais.
Em sua jornada no trenzinho de
brinquedo do menininho, Papai Noel viu muita alegria em países cristãos, que
celebravam a chegada Daquele que veio trazer a mais linda e verdadeira mensagem
de amor e solidariedade ao mundo, assim como esteve em outros países, onde o
Aniversariante da época nem é conhecido. Em todos, viu crianças felizes e
tristes. Viu alegria e sofrimento desses inocentes.
Como sempre, em sua longa trajetória de
vida, Papai Noel constatou que a felicidade era resultado de amor, cuidado,
dedicação, honestidade e esclarecimento dos adultos, responsáveis direta e
indiretamente por eles. E o sofrimento derivava do desamor, irresponsabilidade,
ignorância, ganância e corrupção de pessoas que ignoram seus deveres para com
esses pequenos desamparados e indefesos.
Papai Noel ficou triste e eu até
adivinhei suas reflexões sobre um mundo que, apesar de comemorar o Natal, não
põe em prática em sua totalidade – como
deveria, se os corações fossem mais brandos e as mentes mais saudáveis – a
sublime mensagem de Quem assumiu a responsabilidade de se sacrificar para
ensinar o que é o verdadeiro amor.
No final, Papai Noel se lembrou de que
era Natal e voltou a percorrer os caminhos do céu estrelado, não sem antes
deixar o trenzinho junto à decoração natalina, na casa do menininho.
Mas, hoje, fica muito difícil pensar em
Natal, Papai Noel, o pequeno Jesus recém-nascido e cuidado por Maria; fica
difícil pensar em cores e luzes de Natal, em alegria e até nos contrastes deste
nosso mundo. Apesar de sabermos que a vida tem que continuar e que nós podemos
fazer uma pequena diferença para que ela seja mais bonita, impossível deixar de
lembrar Brumadinho.
A tragédia mineira, apesar de já ter
ocorrido há mais de uma semana, não desocupa nossas mentes. A mídia ajuda a
manter o assunto em evidência, e com
razão, tamanha a magnitude do colapso! O rompimento da barragem foi tão
assustador e destruidor, que apenas quem sofreu suas consequências pôde
realmente mensurar a tragédia. Nós somente imaginamos e sofremos junto com
aqueles que perderam a vida da maneira mais terrível, que ficaram mutilados,
que viram seres queridos desaparecer, que não mais têm casas e bens, que se
veem, de repente, sem amparo e sem chão.
Sim, um sofrimento inenarrável, uma dor
profunda, uma angústia que não se extingue. De repente, entramos nas vidas e
nas histórias de crianças, de pessoas que não conhecíamos, mas que a telinha da
TV nos mostra em sua desesperadora realidade. E sofremos junto, e queremos, de
alguma forma, diminuir esse sofrimento. E arrecadamos doações para Brumadinho.
E vamos aos nossos templos rezar por quem partiu e por quem ficou.
A revolta caminha junto, contra o
desprezo com que foram tratados os avisos de perigo e de possibilidade de
repetição do que, há tão pouco tempo, aconteceu em Mariana. E chegam notícias
de que uma quantia em dinheiro será doada a quem perdeu parentes em Brumadinho.
Adianta? Sim, pode diminuir o desamparo das famílias atingidas. Mas, e a
responsabilidade de quem contribuiu para a tragédia?
Não, o Ser Maior não é o responsável
por tanta tristeza. O homem é! Com sua ambição e falta de responsabilidade,
destrói seu semelhante e a natureza. Foi criado para usar sua inteligência em
benefício próprio e alheio, para progredir com responsabilidade, para descobrir
os tesouros escondidos em seu correto modo de pensar, mas trocou todos esses
bens pela ignorância, poder e riqueza. Gerou sofrimento e medo. Gerou
desespero.
Como o
Papai Noel do trenzinho, que em meio à sua missão de espalhar alegria, não
deixa de constatar a tristeza das crianças que sofrem com o obscurantismo e a
corrupção de boa parte da humanidade, também eu procuro continuar vivendo e
espalhando alegria. Mas, um pensamento triste teima em permanecer comigo: o que
Papai Noel diria ao ver tantas crianças vítimas de Brumadinho?