domingo, 3 de fevereiro de 2019

As maiores vítimas


                                            As crianças de Brumadinho





No último Natal, escrevi uma crônica, que foi publicada no jornal A Tribuna, sob o título “O Trenzinho do Papai Noel”. Inspirei-me em meu netinho, que fez questão de acrescentar seu trenzinho de brinquedo na decoração de Natal, em sua casa. E imaginei Papai Noel deixando trenó e renas descansando, para embarcar no confortável trem, a fim de percorrer o mundo e levar presentes às crianças que o esperavam com ansiedade.

         E Papai Noel percorreu muitos cantos do mundo, começando pelo Brasil, onde visitou casas ricamente enfeitadas e entregou presentes pedidos nas cartinhas das crianças, assim como esteve em hospitais, onde fez os pequenos se esquecerem de suas dores e entregou lembrancinhas compradas pela solidariedade de funcionários. Sem contar as paradas nas  calçadas, onde distribuiu às crianças de rua brinquedos simples, de plástico, providenciados por vizinhos e grupos assistenciais.

         Em sua jornada no trenzinho de brinquedo do menininho, Papai Noel viu muita alegria em países cristãos, que celebravam a chegada Daquele que veio trazer a mais linda e verdadeira mensagem de amor e solidariedade ao mundo, assim como esteve em outros países, onde o Aniversariante da época nem é conhecido. Em todos, viu crianças felizes e tristes. Viu alegria e sofrimento desses inocentes.

         Como sempre, em sua longa trajetória de vida, Papai Noel constatou que a felicidade era resultado de amor, cuidado, dedicação, honestidade e esclarecimento dos adultos, responsáveis direta e indiretamente por eles. E o sofrimento derivava do desamor, irresponsabilidade, ignorância, ganância e corrupção de pessoas que ignoram seus deveres para com esses pequenos desamparados e indefesos.

         Papai Noel ficou triste e eu até adivinhei suas reflexões sobre um mundo que, apesar de comemorar o Natal, não põe em prática em sua totalidade  – como deveria, se os corações fossem mais brandos e as mentes mais saudáveis – a sublime mensagem de Quem assumiu a responsabilidade de se sacrificar para ensinar o que é o verdadeiro amor.

         No final, Papai Noel se lembrou de que era Natal e voltou a percorrer os caminhos do céu estrelado, não sem antes deixar o trenzinho junto à decoração natalina, na casa do menininho.

         Mas, hoje, fica muito difícil pensar em Natal, Papai Noel, o pequeno Jesus recém-nascido e cuidado por Maria; fica difícil pensar em cores e luzes de Natal, em alegria e até nos contrastes deste nosso mundo. Apesar de sabermos que a vida tem que continuar e que nós podemos fazer uma pequena diferença para que ela seja mais bonita, impossível deixar de lembrar Brumadinho.

         A tragédia mineira, apesar de já ter ocorrido há mais de uma semana, não desocupa nossas mentes. A mídia ajuda a manter o assunto em evidência,  e com razão, tamanha a magnitude do colapso! O rompimento da barragem foi tão assustador e destruidor, que apenas quem sofreu suas consequências pôde realmente mensurar a tragédia. Nós somente imaginamos e sofremos junto com aqueles que perderam a vida da maneira mais terrível, que ficaram mutilados, que viram seres queridos desaparecer, que não mais têm casas e bens, que se veem, de repente, sem amparo e sem chão.

         Sim, um sofrimento inenarrável, uma dor profunda, uma angústia que não se extingue. De repente, entramos nas vidas e nas histórias de crianças, de pessoas que não conhecíamos, mas que a telinha da TV nos mostra em sua desesperadora realidade. E sofremos junto, e queremos, de alguma forma, diminuir esse sofrimento. E arrecadamos doações para Brumadinho. E vamos aos nossos templos rezar por quem partiu e por quem ficou.

         A revolta caminha junto, contra o desprezo com que foram tratados os avisos de perigo e de possibilidade de repetição do que, há tão pouco tempo, aconteceu em Mariana. E chegam notícias de que uma quantia em dinheiro será doada a quem perdeu parentes em Brumadinho. Adianta? Sim, pode diminuir o desamparo das famílias atingidas. Mas, e a responsabilidade de quem contribuiu para a tragédia?

         Não, o Ser Maior não é o responsável por tanta tristeza. O homem é! Com sua ambição e falta de responsabilidade, destrói seu semelhante e a natureza. Foi criado para usar sua inteligência em benefício próprio e alheio, para progredir com responsabilidade, para descobrir os tesouros escondidos em seu correto modo de pensar, mas trocou todos esses bens pela ignorância, poder e riqueza. Gerou sofrimento e medo. Gerou desespero.

         Como o Papai Noel do trenzinho, que em meio à sua missão de espalhar alegria, não deixa de constatar a tristeza das crianças que sofrem com o obscurantismo e a corrupção de boa parte da humanidade, também eu procuro continuar vivendo e espalhando alegria. Mas, um pensamento triste teima em permanecer comigo: o que Papai Noel diria ao ver tantas crianças vítimas de Brumadinho?